PEQUENAS CONVERSAS NA MESA DO CAFÉ
REFLEXÕES
Nasci
no
dia 18 de julho
meu
espírito
que
vagava
e
passeava pelas nuvens
decidiu
que
naquele
dia
iria
renascer
escolheu
o lar
a
cidade
o
país
o
casal
e
nesse dia iluminado
nasceu
nasci
passadas
tantas infâncias
quentes
verões
alegres
adolescências
e
sensuais primaveras
a
maturidade me pegou de surpresa
quando
vi
já
era outono
com
chuvas
desaguando
no meu jardim
mesmo
assim
ainda
me emociono
nos
dias 18 de julho
com
meus sonhos de menina
e
saudades de mim.
Menção honrosa no VI Festival Carioca de Poesia, 2
2024 foi o ano da graça dos meus oitenta,
redondinhos. Não foi nada fácil. Entrei numa depressão no final de 2023, por
conta de um dente que precisava ser extraído, mas com os feriados natalinos,
não pude resolver. Além disso, tive que administrar o câncer epidérmico,
benigno ainda bem, de Jessie May, e o tratamento de carrapato do Bob. Pauleira.
Entrou o novo ano, os cachorros melhoraram, o dentista voltou ao trabalho e
procurei ajuda psicológica. Amigos estão longe, quem mandou eu vir morar em
Petrópolis? A vida seguiu e julho chegou. Comemorei o aniversário num spa da
região, e tive plena consciência que uma nova jornada começava. Definitiva.
Depois de certo sofrimento, minha mente clareou
e passei a nadar de braçada em águas salgadas e amorosas de Iemanjá, que não é
a minha rainha, mas é como se fosse, uma vez que tenho afinidade absoluta com a
água. Até a do chuveiro. Sai dessa fortalecida, e dando importância menor a
tudo que me cerca. Importante mesmo é a saúde, comer bem e pouco, cuidar do
entorno e seguir em frente. Se ficar doente, o hospital é logo ali. Amigos
envelhecem como você, mudam suas prioridades, assim como você. Racionalizei que
somos sozinhos, sim, e agradeça se alguém se lembrar de você e lhe ligar. De
mês em mês, ou nas datas festivas. Aprenda com isso.
Uma médica me disse que pessoas idosas tendem a
ficarem depressivas e isoladas. Raras são as que não precisam de remédios.
Então, engula o comprimido e viva feliz.
O corpo sofre metamorfose formidável. No meu
caso a coluna deu pequenos sinais ao longo dos 60 anos, nada forte, porém
pontuais que eu deveria ter prestado atenção, e durante a pandemia de Covid em
2019, minha perna direita colapsou. Passei a mancar e a viver um inferno, onde
o que me motivava a perseverar era a esperança de melhorar. Fiquei revoltada
com a situação porque sempre fiz esporte, dança, ginástica, musculação e a
cabeça não segurou e muito menos entendeu o problema lombar que me imobilizou,
praticamente. Mancava, usava bengala e a dor ciática pegava toda a minha coxa
direita. Os médicos disseram que quase todos que praticam esportes, podem ter
problemas lombares na velhice. E o pior: a velhice depaupera o corpo, aos
poucos, e as pessoas que se dedicam a determinadas práticas são as que mais
sofrem na velhice. Desde criança, principalmente nas aulas de balé, não
conseguia fazer determinados movimentos. Já era a minha lombar, só que naquela
tenra idade quem iria imaginar o que aconteceria 70 anos depois. Dediquei-me
com afinco a fisioterapia, cannabis, a musculação e ao alongamento. Não
esmoreci nem por um momento. Hoje, superei, mas não estou 100%, fico no 80%.
Voltei à natação, ando sem bengala, mas ainda tenho um certo incômodo lombar,
digamos assim.
Fique atento ao seu corpo, como eu disse, ele
lhe dá sinais.
No início tudo era novidade. Tive a sorte de
conhecer um casal maravilhoso e muito importante para a minha adaptação, numa
idade em que muitas pessoas têm dificuldades para mudar e fazer novos amigos.
Virgínia ia comigo ao centro de Petrópolis, me mostrava caminhos e becos e
passei a desbravar esse lugar tranquilo, certa de que tinha feito a coisa
certa. Sérgio cuidava do espaço ao redor, sempre prestativo. E continuo tendo
prazer em estar aqui. Se estivesse ainda morando no Rio estaria presa dentro de
casa e com medo de sair. Sem falar no calorão.
Cheguei em agosto de 2010. Agosto. Em janeiro
de 2011 abateu-se no município uma tragédia de proporções gigantescas: a
enchente no Vale do Cuiabá, onde morava. Eu fiquei assustadíssima. Nunca tinha
visto tanta chuva, que na verdade já vinha sendo anunciada desde dezembro, pois
não parava de chover. Eu estava encantada com tanta chuva, sem ter noção do que
viria depois. Pois aconteceu o dilúvio. Começou uma chuva insana, violenta e vi
muita desgraça. Minha casa foi
preservada, mas o pequeno riacho que passava próximo ao portão de entrada virou
um rio caudaloso que trouxe para dentro de suas águas caudalosas tudo que viu
pela frente: casas, bichos e pessoas. Lembro-me de um menino que gritava
dizendo que não sabia nadar, e que ia sendo levado pelas águas. Encontrou um
galho e se agarrou no galho até ser socorrido. Sem falar nos animais, cavalos e
cachorros que passavam na frente de nossos olhos e o nosso desespero em não
poder salvá-los. Houve também uma casa que foi arrastada pelas águas com as
pessoas na varanda de cima gritando sem parar. Não sei se sobreviveram.
Esse foi o meu batismo na Serra. Realmente,
quando chove aqui, é sempre uma tragédia anunciada.
Ir ao cinema, comprar ingresso na hora, é outra
prática que se acabou. Compra-se o ingresso via internet e quando se chega ao
cinema, enfrenta-se uma fila para entrar. Entretenimento é programado. Muita
gente, muito tudo. No cinema, aguentava-se a luz do celular do sujeito da fila
da frente falando e olhando para a tela ao mesmo tempo. As pessoas esbravejavam
também porque o celular tocava o tempo todo. Uma vez no teatro, duas amigas na
minha frente olhavam a tela quando as luzes se apagaram, indicando que o
espetáculo ia começar. As duas sem noção continuavam com seus celulares
ligados, até que a fila detrás delas esbravejou com tanta veemência que as
moças deixaram a sala, acredito eu, envergonhadas.
A vida na Serra, embora com muita qualidade, já
sofre com a falta de inoperância das autoridades urbanas. A Estrada União e
Indústria, principal via urbana tem
engarrafamentos constantes, não há alargamento das vias públicas por
conta de um desentendimento secular entre poderes e consequentemente o trânsito
fica engarrafado praticamente o dia todo. Qualquer intervenção na Estrada tem
que ser por via federal, e verdade é que o tal poder federal não está nem aí.
Prefeitura de municípios é cabide de empregos. Muita gente e pouca ação.
Não posso deixar de registrar que começaram os
assaltos, principalmente à noite. Na rua que dá acesso ao meu condomínio, as
motos barbarizam. Sempre são em dois e atacam as mulheres. No centro de
Petrópolis, à noite, então nem se fala. Conheço um rapaz, que frequenta a mesma
academia que eu, que foi assaltado e não morreu por pouco.
Quando fiz 59 anos tive uma “iluminação” literária. Do nada, comecei a escrever poemas e contos curtos e fiz o maior sucesso em rodas literárias cariocas. Para mim foi surpreendente. Fui aluna aplicada em Português e tirava notas altas em redação, mas nunca pensei ir mais além. E também não tive nenhuma professora que houvesse avistado o talento que poderia ser desenvolvido.
Prêmios e menções honrosas se sucederam,
principalmente em poesia, e olhem que eu nunca gostei de poesia. Recordo que
quando criança amava I-Juca Pirama de Gonçalves Dias. Isso porque sabia que
índio gostava de nadar e eu também, e havia a exaltação patriótica do poema que
cativa os pequeninos.
Numa roda literária ouvi de uma pessoa que as
mulheres quando se aposentam viram escritoras. Ri e respondi: bem, estou nessa,
porém ainda não me aposentei.
Publico meus livros no site do Amazon, não
tenho leitores, mas continuo insistindo. Até morrer. Só tive um livro
publicado, ContoEntreContos. Banquei a publicação, movida pelos prêmios e
menções honrosas recebidas, gastei uma grana, fiquei com alguns exemplares e pronto.
Quando descobri o site, foi uma maravilha. Como continuava escrevendo e
continuo, posto tudo lá. Desisti de informar aos amigos, ninguém compra ou não
se interessa. Até para lerem meu blog, tenho que insisti. Melhor usar o verbo
no passado. Insistia.
Hoje tenho menos disposição de sair ou de fazer novos amigos. Gosto de ficar em casa, já gasto muito tempo nadando e me exercitando, e como nesta idade ninguém é de ferro, preciso descansar mais. Não tenho problemas com isso. Tenho um verde exuberante na frente dos meus olhos. Passarinhos, tucanos, jacus, miquinhos e tatus são visitantes assíduos. Cobras também costumam dar as caras, mas não no meu terreno. Acho maravilhoso quando encontro um ninho de passarinhos. Fico agradecida e acompanho o desenrolar. Vejo os filhotes crescerem, darem os primeiros voos e desaparecem para a vida. É um privilégio poder usufruir dessa beleza extraordinária que é a natureza.
O clima por aqui também está estranho. De uns
anos para cá, o frio deu lugar a um calorão impertinente que me deixa nervosa,
porque fatalmente haverá temporais, que são horripilantes. Uma caraterística
serrana. Sempre tenho a impressão de que a casa vai desabar. Quando se mora em
apartamento não se tem dimensão da força do vento e da chuva. Há vários andares
acima do seu e dificilmente um prédio desmorona. Todavia, numa casa há o perigo
de telhas e tampas de caixa d’água irem pelos ares. Outro dia mesmo a força do
vento abriu a porta eletrônica daqui de casa, enquanto as árvores balançavam
perigosamente, de um lado para o outro. Vi-me
num cenário de horror. O silêncio ao redor assustava tanto quanto a
fúria da natureza, e eu torcia para que tudo voltasse ao normal logo. Sou
tomada pelo pânico nessas situações, que são frequentes, e torço para que não
surte, pois não há nada a se fazer senão esperar. Interessante que é a minha
cachorra, Jessie May, quem avisa que tempestades estão chegando. Ela é mais
precisa do que o serviço de meteorologia. Ela se agita, anda de um lado para o
outro, olha firme para mim e se aconchega, pedindo acolhimento. Já o Bob fica
na dele, e também grudado a mim.
Por conta dessa exuberância ao meu redor,
aprendi a meditar e a refletir sobre a minha jornada. Consigo ter certa paz
para me abstrair e acalmar o meu espírito, que é muito importante,
principalmente agora. Mas, é nadando que alinho corpo e mente. Saio fortalecida
da água. Todos precisamos do exercício, seja o que for. Nos manter ativos
melhora tudo, até a circulação sanguínea.
Nunca tive vontade de ter um companheiro para me aquecer nas noites de inverno. Verdade. Também não apareceu ninguém que me estimulasse. A verdade é que nós mulheres, muitas vezes, chegamos à velhice melhor do que os homens. Homens próximos da minha idade, ou estão barrigudos ou carecas, e começar um relacionamento com figuras assim, não dá. Claro, que aos 80 anos nem penso nisso, mas pensava sim, aos 70. Faz diferença, e muita. Sinto falta da conversa masculina. Acho instigante, gosto de homens, mas aqui é difícil conhecer. Tem mesmo é muita mulher sozinha, sinal dos tempos. Não gosto da noite. Talvez se gostasse, poderia conhecer outras pessoas, senhores bem apessoados, quem sabe?
Amigos acham que eu me isolei, mas se esquecem
que filha única já nasce sozinha, portanto, tiro de letra. Conheço gente que
tem irmão, irmã que não são nada legais. Esse fato reforça a minha tese. Somos
nós com a gente mesmo. Seja produtivo e toque sua vida. Também digo mais, nunca
pensei que houvesse gente descartável. E há. Ouvi falar que idoso é
intolerante. Eu não tolero algumas atitudes que possam me desagradar. Levo
algum tempo armazenando o incômodo, e não tenho pudor de dar o bote e sair da
raia. Faz bem, ruim é ficar numa relação que já se desgastou e não nos dá
nenhum prazer. Somos mutantes, nada é definitivo, tenha esse fato em mente.
De 2019 a 2022 tivemos o pior presidente deste
país. Enfrentou-se uma epidemia de Covid, fatal, a população ficou dentro de
suas casas e o chefe da nação, ao invés de nos acalmar, só falava besteiras,
negava a pandemia, enquanto pessoas morriam aos montes. E então, o de pior veio
à tona, abrindo as porteiras para que um bando de brasileiros se identificasse
com as pautas negacionistas e pouco patrióticas vomitadas por aquele
presidente. O Brasil fechou uma porta e abriu outra, feia e assustadora.
A nossa história é feia, o colonizador oprimia
os colonizados, a escravidão foi cruel, as riquezas do solo enviadas para
Portugal, Espanha e Holanda e ditadores de vários matizes se impuseram ao longo
da nossa história. No país de 2019-2022 a nojeira boiou na superfície. O clima
era pesado, a política fez amigos se desentenderam, familiares brigarem entre
si, e o resultado é que aquela polarização vinga até hoje. Para mim, o país se
apequenou desde então, o Congresso está cheio desses simpatizantes, essa
maioria extrema-direita é assustadora. A esquerda também, deveria dizer os
extremos são catastróficos, as pessoas ficam cegas e moucas. Nunca tivemos um país forte democraticamente,
eu mesma vivenciei duas ditaduras, e penso que a democracia brasileira está por
um fio. Qual é o país que queremos? Você acompanha os passos dos seus
congressistas? Duvido, a maior parte nem se lembra em quem votou. Então, como
cobrar? E por essa ausência de comprometimento, os políticos amealham seus pés
de meia e se eternizam no poder. Lixam-se para o país. Político é profissão de
fé.
As eleições para a prefeitura das cidades
brasileiras mostraram a grande virada pós Lula e pós Bolsonaro. Lula envelheceu
e com ideias políticas segmentadas que fazem mal a imagem do país. Venezuela é
o exemplo mais contundente, sem falar na sua posição ambígua em relação ao
Oriente Médio. Bolsonaro nunca conseguiu pensar fora de sua caixa. O pior
presidente, inclusive antidemocrático, que já tivemos. Novos tempos, e o país nunca esteve tão mal.
As amizades ficam no plano social, pelo menos é
o que sinto. Encontro o vizinho, cumprimento, e sigo em frente. O único amigo
que fiz aqui, foi quando Bolsonaro foi eleito. Embora tivesse dado o voto a
ele, ficou tão indignado, depois de ver a merda que fez, que não parava de me
mandar mensagens. Um saco. Não perguntava como eu ia, nem nada, mas derramava
nas mensagens sua bílis venenosa. Reclamei com educação, pedi-lhe para não
mandar mais nada de política, e ele então, se afastou, ofendido. Sintomática
essa atitude. Eu é que era a errada por não querer receber mais suas mensagens.
Ele não seu deu conta do quanto era inconveniente. Seu propósito era destilar sua
bílis. Aliás, percebi isso com pessoas
que eram bolsonaristas e não gostavam das minhas mensagens. Entendi, e segui em
frente. Depois de um tempo vi que o que me ligava a elas eram pequenas
mensagens, que se não fossem enviadas, não faziam diferença alguma. Em outras
palavras, não havia mais o que trocar.
Apesar do condomínio ser legal, somos cercados
por duas favelas. Uma já tem tráfico de drogas e a outra, tem menos, é mais
familiar, menor. Com a milícia e a bandidagem crescendo tanto, tenho cá minhas
dúvidas sobre como será daqui a 20 anos.
A Serra fluminense carece de urbanismo. Não se faz obras de melhoria na malha viária, então os congestionamentos são gigantescos porque não há para onde escapar. A Estrada União e Indústria está obsoleta, os ônibus grandes demais, tudo precisando melhorar, e nada. Fica essa briga insonsa que não leva a nada. A Estrada é federal, a outra é estadual e mais outra é municipal. E o povo reclama e nada acontece. Assim é, senhores, o país em que nós vivemos.
Outra singularidade da região, é o horário dos
restaurantes. Só abrem a partir de quinta-feira, e muitos apenas depois das
18h. É sinistro. E durante a semana há os restaurantes a quilo, um árabe muito
bom, e dois com os menus fixos há anos. Perguntei ao garçom porque não inovavam
e ele me respondeu que não sabia.
No Parque Municipal há eventos de música que
infernizam o entorno. Como só há vias de mão e contramão, o fluxo é complicado.
O Parque está meio largado, mas é bem grande. Costumava caminhar no seu entorno,
mas como moro mais longe, e meu condomínio tem pista, quando quero andar, fico
por aqui. Mas, prefiro mesmo é nadar.
Os shows causam grande transtorno para as
pessoas que vivem perto e longe, pois o som se propaga e ninguém dorme. Os
jovens se embebedam e já houve ocasião em
que saíram pelados do Parque e
ficaram zanzando com copos de bebida nas mãos. Causa-me estranhamento esse
comportamento. Não vão a show para se divertir, mas para se drogar e se
embebedar. Há exceções, nem todo gado é igual, mas a imagem que fica é a pior.
A mesma coisa acontece no meu condomínio. Há casas que alugadas por Airnbn, e
apenas uma que é disponibilizada para festas. Bem, a turma chega, aos montes,
e sabe-se lá o que rola lá dentro. Volta e meia condôminos do entorno
esbravejam, a segurança é acionada, e nada resulta de prático. Ou não atendem a
campainha, ou nem sempre tem campainha. Nem tudo são flores, os espinhos sempre
à mostra.
Tenho tempo suficiente para pensar na religiosidade. Já acreditei em muita coisa, até nas cartas, mas o ceticismo ultimamente, tomou conta de mim. O que me move hoje é o que posso fazer para ajudar o outro, sem interferências divinas. Pessoas usam expressões tais como Vá com Deus, Fica com Deus, Deus te abençoe, e vai por aí afora. Já fiz isso, mas não gostava. Como eu podia dizer Vá com Deus, se nem entendia como isso seria possível. Aquilo não encaixava. Depois eu entendi. Já questionava essa presença onipotente de um ser, divino que não víamos, mas que os líderes religiosos diziam ser o ser supremo, criador de todas as coisas. Religião é isso, trabalhar com o inimaginável, aterrorizar o homem, ter dívida eterna com o Criador. Alguns pastores evangélicos têm esse procedimento. Minha faxineira ao mudar de igreja, passou a usar calças compridas. A mudança no vestuário se deveu ao fato do pastor dizer que não havia problema algum usar calças ao contrário do primeiro que proibia terminantemente: contra a vontade de deus. Ah, me poupem. Quanto mais gente se curvar perante ao que dizem esses tipos de líderes continuaremos a ser atrasados. Pobre de nós, e a quantidade de igrejas que são construídas a cada dia é assustador. Sei também que há outras sérias e que ajudam realmente os necessitados, que no país aumentam exponencialmente a cada ano. Não se fala em controle de natalidade e sim em bolsas sociais. No Brasil se dá o peixe ao invés de se ensinar a pescar.
Saiu recentemente no jornal uma reportagem sobre o cabelo branco feminino. As mulheres do mundo inteiro pintam o cabelo, e poucas o deixam embranquecer. Conheci, quando criança, uma mulher rica, linda, ainda jovem que exibia orgulhosamente seus cabelos grisalhos. Eu achava lindo. Quando o meu começou a embranquecer, não fiz nada, deixei. Era um grisalho forte e brilhoso. Fui deixando, e hoje faço luzes invertidas. O cabelo, na minha idade, apresenta fios arrepiados que me incomodaram bastante, depois entendi que o passar do tempo também passa pelo couro cabeludo. Nada que um bom creme não resolva.
Existe sim, um pavor de envelhecer, de ter
rugas e o corpo colapsar, e o Brasil é campeão em cirurgias plásticas, de
barriga, de coxa, de tudo. Vira e mexe morre um. Sem falar na pigmentação de
sobrancelhas, para mim um horror, lábios intumescidos e cílios postiços. Eita,
viram mulheres de revista em quadrinhos.
Nunca tive filhos e hoje também não os
teria. Meus amigos mais jovens temem
pelos seus filhos e netos, pensamentos impensáveis há 30 anos atrás. As
mulheres queriam filhos e constituir famílias, hoje preferem curtir o marido,
ou não, e seguir em frente. Houve avanço considerável nas relações amorosas. As
pessoas são mais livres para seguirem suas escolhas. Principalmente nós, as
mulheres, sempre estigmatizadas e cercadas por restrições religiosas e
machistas. Hoje decidimos o que fazer da nossa vida, somos livres para voar.
Muitas ainda não conseguem por questões familiares ou religiosas, mas a maioria
nas grandes cidades é dona de seus narizes. Mas, ainda assim, conheço mulheres
que ficam presas em uniões que já se deterioraram pelo tempo por conta de
filhos ou pelo conforto que o dinheiro proporciona.
A natureza em risco grita desesperada e os humanos assistem de camarote a reviravolta política no mundo. A natureza e o mundo em risco. Se daqui para a frente não houver políticas públicas sérias a natureza poderá destruir cidades, como já acontece, e o poder político nas mãos erradas também tem o mesmo efeito. A guerra de hoje se trava entre a democracia e o autoritarismo. Sabemos todos quem foi Hitler e Mussolini, e no século 21 temos lideranças muito ameaçadoras. No país surgiram líderes boçais que o povo abraçou sem pestanejar. E não foi o pobre, foi a classe média, em todos os níveis.
O país patina em pautas como a Educação e o
Social. Não me conformo com a falta de escolas com qualidade e de ensino
integral. Desde sempre escuto que o governo quer manter o povo pouco
escolarizado. No início me recusava a acreditar no fato, mas acho que procede.
A quem interessa um povo letrado? Se países como o Brasil manterem a pobreza e
a falta de escolas, os autoritários, os messias de ocasião terão sempre espaço.
O professor de escola pública não se interessa em se qualificar porque o
dinheiro que recebe é pouco, então, ficam elas por elas. Ganho pouco, preciso
do trabalho, o salário é ruim, dou o que posso. Quando leio no jornal que
alunos de escola pública ganharam prêmios de excelência no exterior, me comovo
e aplaudo.
E no social homens brancos, de paletó e gravata
bradam contra o aborto. Um direito da mulher, inalienável. Meu corpo, mando eu.
Esses congressistas de extrema-direita que se posicionam contra, na verdade é
para fazer birra ao governo, como um deles mesmo confessou.
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As chuvas aqui são de assustar. Ontem mesmo choveu o dia inteiro, chuva pesada com direito a vento forte fazendo as árvores se balançarem como nos filmes de terror. Uma coreografia macabra que me deixa nervosa. Presenciei desde que cheguei, a fúria das águas que despencam dos céus. Fui testemunha ocular da tragédia do Cuiabá, no início de 2011. Havia me mudado em agosto de 2010, e jamais pensei que poucos meses depois veria o córrego que passava perto de casa inundaria e viraria rio com ondas caudalosas. A pior experiência de minha vida. Daí para a frente, percebi que é uma constante na Serra. A quantidade espantosa de pessoas que veem suas casas correrem rio abaixo por conta da violência da natureza é incontável. Muita gente sem casa e sem ter para onde ir.
A prefeitura não faz o assoreamento dos rios,
as pessoas jogam o lixo, de qualquer maneira, nas caçambas, nas ruas, no rio, e temos então, o
prato feito. A prefeitura sempre omissa, mas cheia de funcionários.
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O Brasil hoje está tomado pela bandidagem. Facções criminosas se alojaram por todo canto. Ausência de políticas públicas e cegueira dos governantes que se recusaram ou não quiseram ver o progresso do crime. Dá trabalho, mais fácil é empurrar o problema para baixo do tapete e tratar bem as elites. Quem se incomoda se um menino da baixada ou um motociclista de entregas for baleado? Menos um, creio ser o pensamento dominante. A polícia também pensa assim e sai matando a torto e a direito. Nem as câmaras instaladas nas fardas dos policiais são obstáculos para o crime. Existe sim uma falência total da política de segurança no país, e deverá ser muito difícil acabar com isso, uma vez que os governantes nunca mostraram vontade para que a situação seja revertida.
16
Na roda gigante que nos move, quem está em cima ontem, hoje está embaixo. A direita domina os políticos e a esquerda está em minoria e fragmentada. Os EUA com Donald Trump na presidência do mais importante país democrático do mundo é um risco para os próprios americanos. Seu ministério é formado por políticos que são a antítese do que se jamais viu em política americana.
Pela minha idade posso ter uma visão ampla e
bastante consistente do país onde nasci e vivo. Nos meus primeiros anos, na
cidade do Rio de Janeiro havia muita pobreza, faltava água e luz. As letras dos
sambistas falavam das mulheres que levavam lata na cabeça, das estrelas que
iluminavam os morros, enfim, de todas as mazelas da cidade de forma poética.
Hoje nem consigo imaginar como seria no Maranhão e pelo Nordeste naquela época,
que aliás foram estados fortes na imigração para o sudeste. População essa que
se alojou nos morros cariocas, onde já viviam os negros alijados da sociedade
depois da Lei Áurea. Na verdade, tudo tosco nesse país. Nossa história não é
nada bonita, as elites sempre tirando vantagem. Até hoje. Claro que melhorou,
mas pouco. Não vejo o Brasil alcançando protagonismo mundial. É o país maior da
América do Sul, onde todos os países foram colonizados e têm enormes problemas,
sociais e econômicos.
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O mito do brasileiro cordial. Isso não existe e nunca existiu. Quando se é jovem, tudo tem uma coloração diferente. Eu enxergava um mundo azul e um país incrível. Ainda não viajara, portanto, a visão era parcial, tinha uma vida boa, brincava muito, amava a escola e me dava bem com os amiguinhos. Na minha casa tinha luz, comida e uma boa cama para dormir. Percebia que tinha uma posição privilegiada, havia empregados por todo o canto, e a casa era grande, pois morávamos com os meus avós maternos. Então havia a diferença latente que meus olhos de menina, muito jovem, não notavam.
Fui tomando consciência desse país lá pelos
meus trinta anos. Os fatos, que depois se tornaram históricos, passavam pelos
meus olhos, eu registrava, como a morte de Getúlio Vargas, ainda menina e o
golpe militar, na adolescência. Impressionou-me vivamente o cortejo público
daquele presidente amado e odiado. Em casa era bem dividido. Meu pai sulista
gostava, meu avô, português e com
ideologia comunista, não. Minha mãe se alinhava ao meu pai, e minha avó não se
manifestava.
Nós vivíamos apertados de dinheiro. Os avós
ajudavam muito, pagaram pela minha educação acadêmica e pelas aulas de piano.
Meu pai, que tinha temperamento forte não gostava dessa situação e quando eu
tinha 8 anos, saímos da casa dos avós, que continuaram pagando pelos meus
estudos, e fomos morar em apartamento. Estranhei no começo, mas criança logo
acostuma. Vida que segue.
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O Colégio Mello e Souza em Ipanema, foi meu porto seguro. Adorava a escola, adorava os professores, e sem falar nas amiguinhas, quatro que conservo até hoje.
O Rio de Janeiro dos anos 50 e 60 foram
incríveis. A cidade era linda, Juscelino Kubitschek na presidência inaugurava
uma nova capital, com o magnífico Oscar Niemeyer à frente. Brasília, a Bossa
Nova surgia e fervia de talentos musicais que emergiam da noite para o dia. A
juventude estava apta e ávida por mudanças. As moças usavam minissaias, iam a
boate, fumavam e tomavam a pílula. Esse comportamento era mais caraterístico da
zona sul. A zona norte era conservadora. A Bossa Nova, movimento musical típico
da zona sul carioca, invadia as festas dançantes, onde havia sempre um cantinho
onde um cantor dedilhava seu violão. Éramos a juventude dourada. E principalmente,
andava-se à noite sem nenhum problema de assalto ou sequestro. A decadência da
cidade se iniciou na década de 70 e foi aumentando devagar e hoje é
avassaladora, o Rio se transformou numa cidade nas mãos da milícia (A Baixada
principalmente) e a queda na educação acadêmica é impressionante. Os bairros da
zona sul resistem, mas se transformaram para pior. O Leblon da década de 50,
cheio de casas lindas deu lugar a um bairro cheio de espigões, cujos
apartamentos são caríssimos. Casas somente no Jardim Pernambuco que valem
fortunas. Tudo ficou difícil, até a praia, nos meses de calor o banhista não
encontra lugar para estender a esteira. Hoje, os guarda-sóis e cadeiras
alugadas são de controle do barraqueiro do pedaço, um tipo de empresários da
praia.
O bonde era lento, mas funcionava. Todavia, em
1963, o governador da época, Carlos Lacerda extinguiu as linhas de bonde. Numa
cidade quente como o Rio, viajar sentindo a brisa do mar era muito bom. Em San
Francisco, California, os bondes continuam até hoje, e as mulheres viajam em pé
no estribo, como os homens. Quando vi isso, fiquei surpresa. Jamais uma carioca
se aventuraria a viajar no estribo. “As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam
como lá”. A população da cidade naquela época era menor em se comparando com a
de hoje em dia, e embora se demorasse mais a chegar, o trajeto compensava. O
Rio de Janeiro não é uma cidade grande. Pode se caminhar de Copacabana até o
centro em pouco mais de 1 1 hora ou menos, o problema é o calorão. Ninguém aguenta
caminhar no sol, é tortura pura, levando em conta que a única estação do ano
que persiste é o verão. Só se tem verão no Rio, com alguns dias mais frios.
Situação que parece estar mudando hoje. Têm dias mais chuvosos, com termômetros
mais baixo, mas ainda assim é difícil aguentar o calor carioca.
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O que me irrita hoje e muito são os latidos de cachorros no condomínio onde moro. Minha impressão é que tem mais cães do que humanos. Mas, há que ter um sobredose de paciência para aturar os latidos o dia inteiro. Tenho cães desde que me entendo por gente. Morei em casa quando criança e lá tinha um cachorro. Depois, mudei para apartamento, tive outro e assim foi. Ao me mudar para cá, trouxe um comigo e depois tive outros. No Rio, os latinos dos meus eu controlava. Chamava a atenção e pronto, aqui é mais difícil, mas mesmo assim, asseguro que meus cães latem infinitamente menos do que os enlouquecidos no entorno. É muito difícil falar disso nas reuniões de condomínio. Impressiona-me a infinda dificuldade que temos em receber críticas. Parece que se dá tapa na cara. Nesta idade aprendi a ficar calada. Ouço barbaridades todos os dias, posições equivocadas, mas finjo que nem é comigo. E por falar em barbaridade, a primeira-dama brasileira lançou um fuck Elon Musk, num evento da G20, realizado no Brasil, precisamente na cidade do Rio de Janeiro, evento esse que ela coordenava. Ficou muito feio. As más línguas fazem circular o fato de que dona Rosangela está deslumbrada com o poder. Dona Rosane Collor de Melo na época do marido presidente também padeceu do mesmo mal.
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O Brasil de 2025 acompanha com lentes de lupa o indiciamento de Bolsonaro e mais 36 ou 37 comparsas na elaboração de mais um golpe no país, desde que assumiu o poder em 2019. Dizem os especialistas que este seria muito mais truculento e sangrento, uma vez que previa o assassinato de Lula, o presidente eleito após Bolsonaro, Alckmin, o vice, e do juiz Alexandre de Moraes. Feia a coisa. Só se fala disso nos noticiários e me lembro de outros fatos da história, desde que nasci. O suicídio de Getúlio Vargas, presidente do Brasil nos idos 1950, depois o golpe militar, a democracia depois das diretas já, o fatídico período de Collor e Mello agora a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro com a estratégia planejada por uma banda podre das Forças Armadas. Se analisarmos a trajetória desse homem, estava muito claro que ele planejava sabotar a democracia e se instalar de novo no poder. As provas estavam, desde sempre, expostas na mesa, mas, estamos no Brasil, e o ritmo do país é lento e sacolejante. Depois de tantos sacolejos, a cobra começou a fumar e os fatos corroboraram o que todos já sabíamos, essa é que é a verdade. Todos queremos punição exemplar. Será?
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Conversas aos pés do ouvido, apenas metaforicamente. Aqui, ninguém se visita, cada um na sua. A gente envelhece e tem que segurar o rojão. Por isso escrevo. Divido com vocês, as minhas impressões sobre tudo que vivi e ainda vivo.
Amizades podem fenecer, deixarem de ser interessantes, embora o carinho e o afeto que nos uniu um dia, possam perdurar. Nunca fui racional, sempre me levei pela emoção, mas na idade madura mudei. Racionalizo sim, e me vejo tomando decisões bem pragmáticas. Está sendo bom. Fujo de pessoas boazinhas com a fama correndo pela frente, de largada. Seres humanos gostam de ajudar e são bastante solidários, os exemplos estão por aí, mas quando há o exagero e a pessoa chega com essa aura, saio correndo. Quando vim morar em Petrópolis, precisei conhecer pessoas e construir o meu ninho. Fui devagar, tateando e buscando. Muito difícil, essa região é complicada, pessoas se estabelecem com suas famílias, netos enchendo a casa, imagine uma mulher de 66 anos, sozinha, procurando casa e amigos. Conheço hoje muita gente, mas a colcha de amigos que teci aqui, é estreita mas bonita. Posso contar com eles a qualquer hora, já não digo isso em relação aos amigos que estão no Rio, pelo óbvio.
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